domingo, 13 de setembro de 2020

SANTA LUZIA DE TOUROS: HISTÓRIAS DE UM DISTRITO SECULAR

O distrito de Santa Luzia - pertence ao município de Touros - é cortado pela rodovia estadual RN-064 (TOUROS - SANTA MARIA). Segundo relatos orais, a antiga comunidade foi se desenvolvendo às margens dos rios Santa Luzia e Tatu. Tais rios constituíram-se ao longo do tempo como importante fonte hídrica para os seus moradores que utilizavam as águas tanto para a agricultura, criação de animais e também para os antigos engenhos de açúcar, sem falar na importância para o consumo pessoal das famílias.

Devido sua localização privilegiada e a inclinação de seus moradores para o trabalho, o distrito de Santa Luzia cresce constantemente, representando hoje o maior distrito de Touros, servindo como pólo agrícola e comercial. A comunidade possui posto de gasolina, oficinas de moto e carro, escolas públicas, postos de saúde, padaria, dezenas de mercadinhos e lojas diversas, além de espaços para prática de esportes como os Campos/mini-campo de Futebol. Possui um forte aparelho religioso com predominância da Igreja Católica e Protestante. 

Uma parcela da população divide o distrito em recortes espaciais similares ao que chamamos de bairros, são eles: 1) Varzinha; 2) Sítio São Francisco; 3) Emprensadinho; 4) Centro; 5) Conjunto Santa Ana e 6) Boa Vista. Desses espaços habitacionais, o Conjunto Santa Ana é o mais recente.

Por meio de uma pesquisa utilizando o método oral, o jovem Eliabe França publicou algumas informações a respeito de personagens que contribuíram para a formação e desenvolvimento do distrito centenário. Apesar dos "perigos" da história oral, considero ser de grande valia a referida entrevista feita com alguns parentes de antigos moradores do "Saco". 

Visando contribuir com a pesquisa histórica do distrito e também do município de Touros, realizei uma breve pesquisa no site da Biblioteca Nacional em busca dos nomes citados pelo jovem Eliabe em seu trabalho. Para minha surpresa e alegria, encontrei alguns nomes importantes para o cenário tourense de 100 anos atrás, vejamos.

Manoel Celestino Pimentel, realmente foi dono de um Engenho de Açúcar às margens do rio Santa Luzia, fato comprovado no relatório do Almanack Laemmert do ano de 1910. Além disso, Manoel aparece como sendo Agricultor. Certamente o poder econômico de Manoel trouxe-lhe prestígio social entre a elite tourense, mesmo morando em uma comunidade relativamente distante do Porto dos Touros.

Outro personagem que consegui identificar foi João Theodoro de Sousa, possuidor de Engenho de Açúcar em 1910 e também era Agricultor. João era o pai do primeiro Vereador do distrito: João Teodoro de Souza Filho. A principal avenida do distrito tem o seu nome como homenagem.

Entroncamento da Av. Vereador João Teodoro de Souza Filho com a RN-064.


Devido a expressiva quantidade de moradores do distrito, a comunidade de Santa Luzia possui atualmente 02 representantes no Poder Legislativo Municipal. Constituindo-se como forte colégio eleitoral no município desde décadas passadas vem tem representantes na Câmara Municipal de Touros. Compartilho aqui a figura do ex-vereador José Tibúrcio de Araújo (Zé de Quinca), que ocupou lugar no legislativo municipal na década de 1970.

 

    
Casa que morou o ex-vereador José Tibúrcio de Araújo. 
Ainda preservada e servindo como um belíssimo exemplo do 
patrimônio arquitetônico do distrito de Santa Luzia.


Este breve relato demonstra um pouco da rica e exuberante história de uma comunidade que cresceu e se desenvolveu ao longo do curso do Vale do rio Santa Luzia, produziu e produz riquezas naturais para todo o município de Touros, além de possuir um incrível patrimônio arquitetônico com seus templos religiosos e casarios de mais de cem anos, pouco conhecido e/ou valorizados.

Conhecer a história do distrito de Santa Luzia é também conhecer a história da antiga Vila do Porto dos Touros. Os Engenhos de Açúcar se foram, ficaram a agricultura e o forte comércio como prova do poder econômico desse distrito. 


Autor: Antonio Tenório, descente da tradicional família "Maurício Gomes" que habitou nas terras úmidas do Vale do rio Santa Luzia. 


Fotos:
Google Maps
Antonio Tenório


Fonte:
http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=313394&pagfis=43753&url=http://memoria.bn.br/docreader# 








quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

NOTAS SOBRE O LANÇAMENTO DO LIVRO "PORTO DOS TOUROS: FREGUESIA E VILA"


Nos dias 22, 23 e 24 de Janeiro do ano de 2020, no Centro de Turismo da Cidade de Touros-RN, ocorreu o III Seminário de História e Cultura Tourense. Um dos momentos de maior destaque foi o lançamento do livro "PORTO DOS TOUROS: Freguesia e Vila", fruto de alguns anos de pesquisas históricas documental realizadas pelo autor tourense Antonio Tenório.



Escritor Tourense Antonio Tenório autografando um dos exemplares de seu primeiro livro.


A proposta do livro é principalmente preencher uma lacuna historiográfica que tem afetado profundamente o desenvolvimento intelectual tourense. Após 20 anos (duas décadas) do lançamento do livro "Touros: uma cidade do Brasil", da lavra do escritor Nilson Patriota, surge um livro que busca comungar com o rigor científico da pesquisa e também apresentar uma linguagem leve, didática para todos, facilitando assim, o acesso ao conhecimento histórico e político local.




Apresentação do livro "Porto dos Touros: Freguesia e Vila".


O livro está dividido em duas partes. A primeira delas, trata do processo de desenvolvimento religioso local, tratando a respeito da construção da primeira Capela, demonstrando informações inéditas sobre o patrimônio da Igreja Católica em Touros e muito mais. A segunda parte, por sua vez, traz um misto de história política e econômica da antiga Vila de Touros. Desperta a curiosidade do leitor por meio dos dados disponibilizados sobre a vida social em Touros num período de mais de 100 anos atrás. Fonte crucial e atual para conhecer o passado, entender o presente e refletir o futuro deste pedaço de chão.



O povo de Touros prestigiando o evento.

Além dos pesquisadores, professores, políticos e populares tourenses, estiveram presentes no lançamento do livro os ilustríssimos professora Dra. Carmen Alveal (UFRN) e o professor Dr. Sérgio Trindade (IFRN).   

O autor ao lado dos acadêmicos.

VENDAS:


- Para aquisição do livro, entrar em contato via whatsapp:
(85) 992512215





sábado, 21 de abril de 2018

DE ESTREMOZ À TOUROS: As raízes da futura Vila de Touros

Diante dos recentes estudos sobre a História do Rio Grande do Norte uma questão tem tomado forma e venho questionando-a constantemente. Diante disso chego a conclusão de que o ato de estudar o passado de Touros também passa pela busca do conhecimento da hoje atual cidade de Extremoz/RN.

Vamos voltar um pouco no tempo para entender essa questão...


Estudar o passado da região que atualmente corresponde ao município de Extremoz passa pelo estudo do período colonial no RN. Alguns documentos régios da época merecem destaque. O primeiro deles é  o "Auto da Repartição das Terras da Capitania do Rio Grande", datado do ano de 1614. Tal registro indica a concessão de pelo menos 05 sesmarias* (chamadas também de datas ou dadas de terras*) destinadas aos padres da Companhia de Jesus, os conhecidos Jesuítas.


Para além das disputas conhecidas entre os Jesuítas e o Poder Monárquico, cabe ressaltar que a participação dos Jesuítas fora primordial para a construção da História de Extremoz, e porque não de Touros? 


Diante dessa assertiva, trago uma breve citação da Professora Marta Maria de Araújo que informa:
"Por volta de 1678, foi criada a primeira Missão de Aldeamento de Guajiru (hoje cidade de Estremoz), com invocação a São Miguel, e onde, sob ordens dos padres jesuítas José da Silveira, Pedro Nogueira, Luís de Mendonça, José de Amorim, Antônio Pinto e João de Gouveia, construíram-se 1759, um templo e um hospício (leia-se um convento)" (ARAÚJO 2005: 219).



A antiga Igreja dos Jesuítas em Estremoz, (MIRANDA 2005)

Já no século 18, mais precisamente no ano de 1758, a então Regente D. Maria enviou duas Cartas Régias para o Governador de Pernambuco, Luiz Diogo Lobo da Silva, que ressaltava sobre a criação das novas leis e determinando que as antigas Missões de Aldeamentos fossem transformadas em Vilas.


Com isso, na manhã do dia 03 de Maio de 1760 foi funda a Real Vila de Estremoz por meio do Ouvidor Bernardo Coelho da Gama e Casco. E a antiga "Missão de Guajiru" passaria à "Igreja e Vigararia de Nossa Senhora dos Prazeres e São Miguel da Vila Nova de Estremoz do Norte" (MARTINS 2005: 103).

Com a expulsão dos Jesuítas do Brasil a Igreja Católica passava a assumir por completo o poder eclesiástico da Colônia. Cerca de Seis décadas depois, em 1832, por meio de Projeto de Lei do Conselho Geral da Província do RN, aprovado em Fevereiro do mesmo ano, e transformado em Lei Provincial a 5 de Setembro de 1832, ocorre o desmembramento do território eclesiástico que corresponderia a futura Freguesia do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, no Porto de Touros. Ficando assim distribuído:
Estremoz - Freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres e São Miguel
Touros - Freguesia do Senhor Bom Jesus dos Navegantes

Concluindo a separação do território político com a Lei n. 21 de 27 de Março de 1835, efetivada pela Assembléia Legislativa Provincial. Sendo assim, o Porto dos Touros se tornaria definitivamente independente do território de Estremoz.

(Ruínas da Igreja de São Miguel, o que sobrou do passado Jesuítico em Estremoz)
     

Considerações Finais

A missão de estudar e contribuir para o "re-conhecimento" do passado de um povo é árdua e profunda, mas, diria que além de necessária, é gratificante. A questão levantada brevemente nesta postagem tem o objetivo primordial de chamar a atenção para uma visão que muita das vezes ficou esquecida ou mesmo não foi trazida a tona por quem deveria. Carecemos de mais estudos, isto é certo, no entanto, já é possível vislumbrar e reconhecer a estreita relação que a então Real Vila de Estremoz teve com a futura Vila de Touros.

"A história é o homem; é nele a permanência de sua vocação maior - a transmissão da cultura" (DORIAN GRAY CALDAS, 2005)


FONTES:

ARAÚJO, Marta Maria de. Escolarização e missões jesuíticas na Capitania do Rio Grande (1597 - 1760). Revista Educação em Questão, v. 22, n. 8, p. 206 - 231, jan./abr. 2005.

CALDAS, Dorian Gray. Saudação. Cibele de Ipanema. Tribuna do Norte, Natal, p. 6, 18 set. 2005.

LOPES, Fátima Martins. EM NOME DA LIBERDADE: AS VILAS DE ÍNDIOS DO RIO GRANDE DO NORTE SOB O DIRETÓRIO POMBALINO NO SÉCULO XVIII. Tese de Doutorado em história, UFPE. Recife, 2005.








quinta-feira, 31 de agosto de 2017

ROZA: UMA FILHA DE ESCRAVA TOURENSE


Desde o período colonial (1530-1815) até o ano de 1888 (abolição da escravatura) a escravidão foi exercida de forma ampla por parte dos Portugueses sobre os negros africanos. A exploração da mão de obra de negros trazidos da África e transformados em escravos no Brasil foi feita durante vários anos em nosso País.

O primeiro registro de batismo de uma filha de escrava em Touros se encontra na imagem abaixo. Fruto de nossas pesquisas em documentos de batismos do século XIX, que se encontram no arquivo da Arquidiocese de Natal, valiosas e inéditas informações estão sendo gradativamente divulgadas e estudadas. 

Na vila de Touros, do longínquo ano de 1834, "Roza" foi batizada na Igreja Matriz. Filha natural de Catharina, que, por sua vez, era escrava de Soteris da Silva, nasceu no dia 30 de Agosto de 1834 e foi batizada em 20 de Setembro do mesmo ano. Foram padrinhos José Martins de Souza e Januária.






Os documentos de batismos surpreendem a cada nova pesquisa por seu conteúdo rico e abrangente, servindo, ainda, de base para o estudo aprofundado de nossas raízes. Saber mais sobre nossos antepassados é um dever e uma necessidade. Quem éramos, como éramos, o que fazíamos? São perguntas que norteiam nossos estudos históricos. 



domingo, 23 de julho de 2017

FRANCISCO ANTONIO DOS SANTOS: O popular "mechinha"


Francisco Antonio dos Santos, tourense, nascido no dia 11 de Abril de 1936. Fruto da união de Antonio dos Santos e Hilda Nazária do Nascimento. Teve ainda mais 06 (seis) irmãos, sendo eles:


Homens:

  • Ciço
  • Antonio José da Cruz (babau)
Mulheres:

  • Maria "Pinico"
  • Maria Ciça
  • Maria da Cruz
  • Branca

Popularmente conhecido por "mechinha", o pescador aposentado Francisco Antonio dos Santos vive atualmente em sua humilde residência na Rua Tabelião Júlio Maria, no Centro de Touros. Cercado por seus netos, este ilustre tourense passa grande parte de seu tempo sentado em sua calçada, acenando e sempre brincando com quem passa por aquela rua. 

O sorriso constante em seu rosto esconde os tempos difíceis que ele passou quando criança, ainda na década de 1930, em Touros. Dentre tantas outras lembranças, ele se recorda do acampamento que os militares do Exército fizeram na cidade durante a Segunda Guerra Mundial, nos anos de 1944-45. 

A pesca entrou na vida dele quando ainda tinha 11 (onze) anos de idade. Chegou a pescar com o grande violeiro e seresteiro da cidade, o "Senhor Pereira". Dos tourenses mais conhecidos na cidade ele guarda lembranças de José Porto Filho, ex-prefeito de Touros, também conhecido como "Zé Porto" e do ilustre tourense Júlio Maria do Nascimento, aliás, este último, recebeu homenagem incluindo o nome da rua em que o Senhor "Mechinha" vive hoje.  



Ao longo de sua vida, o senhor "mechinha" trabalho com pesca e agricultura, entretanto, a pescaria foi sua principal atividade. Ao longo de suas 08 (oito) décadas de vida em nossa cidade, este ilustre filho de Touros tem muito que contar. Ele guarda lembranças de nossos antepassados, nossos pais e avós, possuindo muitas experiências que traduzem-se em suas práticas culturais, suas crenças e valores. O nosso pequeno torrão tem muito para nos revelar ainda e por meio de pessoas como este bravo pescador. Um verdadeiro sobrevivente no tempo e no espaço, vivendo num lugar tão precário como era o nosso, sem saneamento básico, inexistência dos serviços mais essenciais para a sobrevivência humana. Durante o seu breve relato, o Senhor "Mechinha" contou que muitas vezes teve que comer farinha com guajirú, demonstrando, assim, um pouco das grandes dificuldades de outrora.   

Fica registrada nossa singela homenagem dedicada ao grande homem, pescador, pai de família e filho de Touros. Nosso torrão se orgulha de possuir pessoas como você que participaram da construção de nossa cidade. 


FONTE: As informações contidas nesta postagem foram coletadas na casa do entrevistado, durante o mês de Janeiro de 2016.